A pele do seu bebê vive vermelha, ressecada, com placas que coçam tanto que ele se coça até ferir? Ou talvez você mesmo, já adulto, conviva com uma coceira crônica nas dobras dos braços e atrás dos joelhos que nenhum creme parece resolver definitivamente? Se esse cenário faz parte do seu dia a dia, é provável que estejamos falando de dermatite atópica (DA) — a doença de pele crônica mais comum na infância e uma das mais impactantes em qualquer idade.

A dermatite atópica afeta até 20% das crianças e cerca de 2% a 3% dos adultos, segundo estimativas internacionais. Em Goiânia, o clima seco do Cerrado entre maio e setembro agrava significativamente a doença, ressecando a pele e intensificando as crises de coceira. Este guia reúne o que há de mais atualizado sobre DA, com base no PCDT da Dermatite Atópica (CONITEC/Ministério da Saúde, atualizado em 2025) e nas diretrizes internacionais da EAACI e AAD. Na minha prática como alergista em Goiânia, a dermatite atópica é uma das condições que mais impactam a qualidade de vida das famílias que atendo — e uma das que mais se beneficiam de acompanhamento especializado e individualizado.

O que é dermatite atópica?

A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica da pele, não contagiosa, que se manifesta por lesões eczematosas (vermelhidão, descamação, crostas), pele muito seca e, acima de tudo, coceira intensa e persistente — o sintoma cardinal da doença.

O problema central da DA está na barreira cutânea: a pele de quem tem dermatite atópica não funciona como uma “capa protetora” eficiente. Ela perde água com facilidade (por isso é cronicamente seca), permite a entrada de irritantes e alérgenos, e é mais vulnerável à colonização por bactérias como o Staphylococcus aureus.

A DA faz parte da chamada “marcha atópica” — uma sequência de doenças alérgicas que frequentemente se sucedem ao longo da infância: dermatite atópica nos primeiros anos de vida, seguida por rinite alérgica e asma. Nem toda criança com DA desenvolverá rinite ou asma, mas o risco é significativamente maior do que na população geral, e o acompanhamento com alergista permite identificar precocemente esses sinais.

Costumo explicar aos pais que a pele atópica é como uma parede com rachaduras: a água escapa de dentro (ressecamento) e os invasores entram com facilidade (alérgenos, bactérias, irritantes). A hidratação intensa e constante funciona como um “selante” que ajuda a tampar essas rachaduras.

Sintomas da dermatite atópica

Em bebês (até 2 anos)

As lesões costumam aparecer no rosto (bochechas, queixo, testa), couro cabeludo e superfícies externas de braços e pernas. A pele fica avermelhada, pode minar líquido (eczema “úmido”) e forma crostas. A coceira é intensa e o bebê fica irritado, dorme mal e se coça ao esfregar o rosto no lençol.

Em crianças maiores e adolescentes

As lesões migram para as áreas de dobras: dobras dos cotovelos, atrás dos joelhos, punhos, tornozelos e pescoço. A pele tende a ficar mais espessa, escurecida e ressecada (liquenificação). A coceira pode ser pior à noite.

Em adultos

A DA em adultos pode afetar mãos, pálpebras, pescoço e áreas de dobras. Em pessoas com tons de pele mais escuros, as lesões podem apresentar acometimento folicular proeminente e hiperpigmentação. A coceira crônica é o sintoma mais impactante, frequentemente associada a distúrbios de sono, ansiedade e redução da qualidade de vida.

Sinal de alerta: se a pele está cronicamente seca, com coceira que não cede e episódios recorrentes de vermelhidão nas mesmas regiões, a avaliação por um alergista ou dermatologista é fundamental.

Causas e gatilhos da dermatite atópica

A DA tem origem multifatorial — envolve predisposição genética (defeitos na barreira cutânea, como mutações no gene da filagrina), disfunção imunológica (inflamação tipo 2 com excesso de citocinas IL-4 e IL-13) e fatores ambientais que desencadeiam ou agravam as crises.

Principais gatilhos

Pele seca: o ressecamento é o gatilho mais importante e mais controlável. Sem hidratação adequada, a barreira cutânea piora e a coceira se intensifica.

Irritantes de contato: sabonetes comuns, produtos de limpeza, tecidos sintéticos ou de lã, fragrâncias, suor excessivo.

Alérgenos: ácaros da poeira, mofo, pelos de animais e, em alguns casos selecionados, alimentos — especialmente em lactentes com DA grave.

Infecções: colonização por Staphylococcus aureus é muito comum na pele atópica e pode deflagrar crises. Infecções virais (herpes) também merecem atenção.

Clima: frio intenso e, particularmente relevante em Goiânia, o ar seco do Cerrado entre maio e setembro, que intensifica o ressecamento cutâneo.

Estresse emocional: não causa DA, mas pode piorar as crises em quem já tem a doença.

O fator Goiânia: pele atópica e o clima seco do Cerrado

O período seco em Goiânia é particularmente difícil para quem tem DA. A umidade relativa do ar pode cair abaixo de 20%, o que acelera a perda de água transepidérmica e torna a pele ainda mais seca, mais irritável e mais propensa a crises. Além disso, a poeira em suspensão e os banhos quentes (comuns nos meses mais frios) agravam o quadro.

Na seca de Goiânia, oriento meus pacientes com DA a intensificar a hidratação para 2 a 3 vezes ao dia, reduzir a temperatura do banho e aplicar o emoliente imediatamente após secar a pele (“regra dos 3 minutos”). Essas medidas simples fazem uma diferença enorme no controle das crises.

Como é feito o diagnóstico da dermatite atópica?

O diagnóstico da dermatite atópica é essencialmente clínico. Não existe um exame de sangue ou de pele que “confirme” DA. O alergista ou dermatologista avalia o padrão e a localização das lesões, a história de coceira crônica, os antecedentes familiares de atopia e a evolução ao longo do tempo.

Os critérios diagnósticos mais utilizados são os de Hanifin e Rajka, que combinam critérios maiores (prurido crônico, morfologia e distribuição típicas, história pessoal/familiar de atopia, curso crônico e recidivante) com critérios menores (xerose, início precoce, IgE elevada, entre outros).

E os testes alérgicos? Testes como prick test e IgE específica NÃO são usados para diagnosticar DA — o diagnóstico é clínico. Eles podem ser úteis como complemento quando há suspeita clínica de que um alérgeno específico (como um alimento ou ácaro) está agravando a dermatite. A decisão de solicitar testes é individualizada e deve ser guiada pela história do paciente, não feita de forma rotineira ou indiscriminada.

Atenção: testes positivos indicam sensibilização, não necessariamente alergia clínica ativa. Dietas de eliminação baseadas apenas em IgE elevada, sem correlação com sintomas, não são recomendadas e podem ser prejudiciais, especialmente em crianças.

Se você ou seu filho convive com coceira crônica e pele ressecada em Goiânia, posso avaliar o caso de forma personalizada.Agende sua consulta — Clique aqui para falar comigo pelo WhatsApp: (62) 99102-5408

Tratamento da dermatite atópica

O tratamento da DA é escalonado por gravidade, conforme o PCDT atualizado em 2025 pelo Ministério da Saúde e as diretrizes internacionais. O objetivo central é controlar a inflamação, restaurar a barreira cutânea e reduzir crises.

1. Hidratação intensiva — a base de tudo

A hidratação é o pilar do tratamento em todos os graus de gravidade. Emolientes (hidratantes com função de barreira) devem ser aplicados diariamente, em quantidade generosa, sobre a pele ainda levemente úmida após o banho. Na seca de Goiânia, muitos pacientes se beneficiam de 2 a 3 aplicações por dia.

Prefira emolientes sem fragrância, sem corante e com formulação densa (cremes e pomadas são mais eficazes que loções). O emoliente ideal varia conforme o tipo de pele e a preferência do paciente — o importante é que ele seja usado consistentemente. Em Goiânia, durante a seca, a vaselina pura é uma opção excelente e acessível como camada de proteção adicional após o hidratante habitual.

2. Cuidados com o banho

• Banhos curtos (5 a 10 minutos), com água morna (nunca quente).

• Usar sabonetes suaves, sem fragrância, de pH neutro a levemente ácido.

• Secar com tapinhas leves (nunca esfregar) e aplicar o emoliente imediatamente após.

• Evitar esponjas e buchas.

3. Corticosteroides tópicos

São o tratamento anti-inflamatório de primeira linha para crises e lesões ativas. A potência do corticosteroide é escolhida conforme a gravidade, a localização (rosto e dobras exigem potências menores) e a idade. Quando usados corretamente e sob orientação médica, são seguros e eficazes.

A “corticofobia” (medo excessivo de corticoides) é comum entre pais e pode levar ao subtratamento. O uso correto, na dose e pelo tempo indicados pelo médico, não causa os efeitos colaterais temidos. Na verdade, o maior risco em DA costuma ser o subtratamento — usar menos medicação do que o necessário, por medo, e permitir que a inflamação persista e cause danos à pele ao longo do tempo.

4. Inibidores de calcineurina tópicos

São anti-inflamatórios não esteroidais (como tacrolimo e pimecrolimo) indicados para áreas sensíveis (rosto, pescoço, genitais) e para manutenção (terapia proativa). O tacrolimo foi recentemente incorporado ao SUS pelo PCDT 2025.

5. Terapia proativa

Em vez de tratar apenas as crises, a abordagem proativa consiste em aplicar o anti-inflamatório tópico (corticoide ou inibidor de calcineurina) 2 vezes por semana nas áreas de recorrência, mesmo quando a pele está aparentemente bem. Essa estratégia reduz significativamente a frequência de crises.

6. Tratamentos sistêmicos (casos moderados a graves)

Quando a DA não responde ao tratamento tópico otimizado:

Imunossupressores convencionais: ciclosporina e metotrexato são opções para casos moderados a graves, disponíveis no SUS. Requerem monitoramento laboratorial regular.

Imunobiológicos: o dupilumabe (anticorpo anti-IL-4/IL-13) é uma opção para DA grave, com resultados significativos em redução de lesões e coceira. No SUS, foi incorporado para crianças (6 meses a 11 anos) com DA grave após falha de ciclosporina ou metotrexato (Portaria SECTICS/MS nº 48/2024). Para adultos e adolescentes, a incorporação no SUS não foi aprovada até o momento, mas o medicamento está disponível na saúde suplementar e via prescrição privada.

Inibidores de JAK: o upadacitinibe foi incorporado ao SUS para adolescentes com DA grave (Portaria SECTICS/MS nº 48/2024). São medicamentos orais que atuam rapidamente na inflamação.

Corticoide oral: NÃO é recomendado como tratamento de rotina para DA. Pode ser usado excepcionalmente em crises graves por curtos períodos, mas não deve ser tratamento contínuo.

Importante: a indicação de tratamento sistêmico depende de avaliação especializada, considerando gravidade, impacto na qualidade de vida e falha terapêutica prévia — não de testes alérgicos.

Dermatite atópica e alergia alimentar: qual a relação?

Essa é uma das dúvidas mais frequentes dos pais. A relação existe, mas é mais nuançada do que muitos imaginam:

• Em lactentes e crianças pequenas com DA moderada a grave, a prevalência de alergia alimentar é maior do que na população geral. Os alimentos mais frequentemente envolvidos são leite de vaca, ovo, trigo, soja e amendoim.

• Porém, a maioria das crianças com DA leve a moderada NÃO tem alergia alimentar como gatilho. Dietas restritivas sem indicação podem causar deficiências nutricionais e prejudicar o crescimento.

• Testes alérgicos para alimentos só devem ser feitos quando a história clínica sugere relação entre a ingestão de um alimento específico e a piora da pele. Testar “painéis” amplos sem indicação aumenta o risco de falso-positivos e restrições desnecessárias.

Na minha experiência, muitos pais chegam ao consultório já tendo restringido diversos alimentos da dieta do filho por conta de um “exame de alergia” positivo, sem orientação médica adequada. Na maioria desses casos, a reintrodução orientada e supervisionada dos alimentos melhora a qualidade de vida da criança sem piorar a pele.

Impacto na qualidade de vida — por que DA não é “só uma coceirinha”

A dermatite atópica tem um impacto na qualidade de vida que vai muito além da pele. Estudos mostram que o impacto pode ser comparável ao de outras doenças crônicas como diabetes e asma — especialmente nas formas moderadas a graves.

Sono: a coceira noturna é um dos aspectos mais devastadores. Crianças com DA dormem mal, acordam várias vezes, e os pais também perdem sono para atender e consolar. A privação crônica de sono afeta o crescimento, o humor e o desempenho escolar.

Aspectos emocionais: crianças com DA podem sentir vergonha, ser alvo de comentários de colegas e evitar atividades como natação ou esportes. Adultos relatam ansiedade, depressão e isolamento social. Pais vivem com culpa e exaustão.

Impacto financeiro: hidratantes adequados, medicações e consultas frequentes geram custos que se acumulam ao longo dos anos.

Reconhecer o impacto real da DA é fundamental para que famílias busquem tratamento adequado e não aceitem conviver com sofrimento desnecessário. Com as opções terapêuticas disponíveis hoje, o controle é possível na grande maioria dos casos.

Dermatite atópica tem cura? Qual o prognóstico?

A DA é uma doença crônica, e não existe cura definitiva no sentido de eliminar a predisposição genética. Porém, o prognóstico costuma ser favorável:

• Uma proporção significativa das crianças com DA apresenta melhora ao longo dos anos, com muitas entrando em remissão durante a infância ou adolescência. Os números variam conforme o estudo e a gravidade, mas é uma tendência reconhecida.

• Porém, parte dos pacientes mantém a doença ativa na vida adulta, e alguns experimentam recidivas após períodos de remissão.

• DA grave na infância, início precoce, associação com outras doenças atópicas (rinite, asma) e sensibilização a múltiplos alérgenos são fatores que sugerem maior risco de persistência.

O tratamento adequado não garante “cura”, mas pode transformar a qualidade de vida — com controle sustentado e redução drástica das crises.

Quando procurar um alergista em Goiânia?

• DA moderada a grave que não responde ao tratamento básico (hidratação + corticoide tópico).

• Suspeita de que alérgenos alimentares ou inalatórios estejam agravando a pele.

• Crises recorrentes de infecção cutânea (impetiginização).

• Impacto significativo no sono, no humor e na qualidade de vida da criança ou do adulto.

• Interesse em avaliar indicação de imunobiológicos ou terapia sistêmica.

• DA associada a rinite, asma ou alergia alimentar (“marcha atópica”).

Perguntas frequentes sobre dermatite atópica

Dermatite atópica é contagiosa?

Não. A DA não é causada por infecção e não se transmite por contato. É uma doença genética e imunológica.

Preciso fazer exame de alergia para saber se meu filho tem DA?

Não. O diagnóstico da DA é clínico. Testes alérgicos são complementares e só são indicados quando há suspeita clínica de que um alérgeno específico está agravando o quadro — nunca como rotina.

Posso usar qualquer hidratante?

Nem todo hidratante é adequado para pele atópica. Prefira emolientes sem fragrância, sem corante, com formulação densa (cremes e pomadas). Loções muito fluidas tendem a ser insuficientes. O alergista ou dermatologista pode orientar a melhor opção conforme o tipo de pele.

Corticoide tópico é perigoso para criança?

Quando usado corretamente — na potência adequada, na área certa, pelo tempo indicado — é seguro e muito eficaz. O maior risco na DA não costuma ser o corticoide, e sim o subtratamento por medo dele.

A seca de Goiânia piora a dermatite atópica?

Muito. O ar seco entre maio e setembro acelera a perda de água da pele, intensifica o ressecamento e favorece crises. Intensificar a hidratação, reduzir a temperatura do banho e evitar exposição prolongada ao ar seco são medidas que ajudam.

Existe vacina de alergia para dermatite atópica?

A imunoterapia com alérgenos (vacina) não é indicação primária para DA. Pode ser considerada quando há rinite ou asma alérgica associada, com sensibilização comprovada — mas o tratamento da DA em si depende de hidratação, anti-inflamatórios tópicos e, quando necessário, medicação sistêmica.

Conclusão

A dermatite atópica é uma doença crônica que exige cuidado contínuo, mas o cenário de tratamento nunca foi tão favorável. Com hidratação adequada, anti-inflamatórios tópicos modernos, terapia proativa e, nos casos graves, imunobiológicos, é possível alcançar um controle excelente e devolver qualidade de vida ao paciente e à família.

Se você mora em Goiânia e enfrenta o desafio extra do clima seco sobre uma pele atópica, saiba que existem estratégias específicas para essa realidade. O acompanhamento especializado faz toda a diferença — desde a escolha do emoliente certo até a avaliação da necessidade de tratamentos avançados como imunobiológicos.

O primeiro passo é não normalizar a coceira crônica. Dermatite atópica tem tratamento, e ninguém precisa conviver com sofrimento desnecessário.

Dr. Mário Victor Costa de Faria — Alergista e Imunologista em GoiâniaCRM-GO 23.741 | RQE 20.638Clínica Manuel Tadeu — Setor Oeste, Goiânia/GOAgende pelo WhatsApp: (62) 99102-5408www.drmariovictor.com.br | @drmariovictor_Atende crianças e adultos | Planos: Unimed, IPASGO, Hapvida

Este conteúdo é informativo e não substitui consulta presencial. Artigo revisado pelo Dr. Mário Victor Costa de Faria, especialista em Alergia e Imunologia pela ASBAI/AMB.

Referências científicas

1. CONITEC/Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas — Dermatite Atópica. Atualizado em 2025. Disponível em: gov.br/conitec.

2. Portaria SECTICS/MS nº 48/2024 — incorporação do dupilumabe (crianças com DA grave) e upadacitinibe (adolescentes com DA grave) no SUS.

3. Portaria SECTICS/MS nº 53/2024 — não incorporação de dupilumabe e upadacitinibe para adultos com DA no SUS.

4. American Academy of Dermatology (AAD) — Atopic Dermatitis Guidelines. aad.org.

5. Hanifin JM, Rajka G. Diagnostic features of atopic dermatitis. Acta Derm Venereol. 1980;Suppl 92:44-47.

6. Solé D, Kuschnir FC, Pastorino AC, et al. V Consenso Brasileiro sobre Rinites – 2024. (Marcha atópica e comorbidades).

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